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Chamem-me gulosa.






























Apesar de gostar de cozinhar de tudo, as receitas que mais me desafiam são as de bolos.
Olhar para um bolo bem decorado e tentar perceber se serei capaz de o reproduzir é dos exercícios mais frequentes quando estou a folhear um livro de cozinha. Apesar do açúcar ser cada vez mais demonizado - e com razão, sobretudo se consumido em excesso - há um lado estético nos bolos e nas sobremesas a que sou incapaz de resistir. E há pessoas que me inspiram de forma especial neste tema dos bolos - não pela sofisticação ou pela complexidade dos seus trabalhos, mas antes pela sua elegante simplicidade (pelo menos aparente).

Uma dessas pessoas talentosas, com olhar apurado e mãos de fada, é a blogger Linda Lomelino, uma sueca de pai português, autora do Call Me Cupcake. O bom gosto e a obssessão pelo detalhe de Linda vêem-se em cada uma das suas fotografias, que fazem escola pela blogosfera e pela internet fora.

Encomendado há já algum tempo, só esta semana me chegou o Lomelino's Cakes, o seu primeiro livro traduzido para inglês. E não foi fácil escolher o primeiro bolo a testar, de entre as 27 receitas promissoras do livro.

Mas a saga - sim, porque já decidi que quero experimentá-las todas - não podia ter começado melhor: este bolo de Oreo, apesar de fruto de uma espécie de desafio de auto-superação, acabou por ser o bolo de aniversário do meu sogro e foi um sucesso. Todos quiseram repetir. E pedirem outra fatia, já se sabe, é o melhor elogio que podem fazer a uma cozinheira.


BOLO DE OREO

Ligeiramente adaptado do livro Lomelino's Cakes

Para a massa de baunilha e Oreo:
60 g de manteiga à temp. ambiente
3/4 de chávena de açúcar
1/2 chávena de leite 1/2 gordo
1 colher de café de extracto de baunilha
1 chávena de farinha s/ fermento
1/2 colher de chá de fermento
1 clara de ovo L
8 bolachas Oreo de tamanho normal

Para a massa de chocolate:
30 g de manteiga
2/3 de chávena de farinha s/ fermento
1/4 de chávena de cacau em pó
1/2 colher de chá de fermento em pó
1/2 colher de chá de bicarbonato de sódio
1/2 chávena de açúcar
1 ovo M
1/3 de chávena de leite 1/2 gordo
1/4 de chávena de água a ferver

Para o recheio e cobertura:
250 g de queijo mascarpone
3/4 de chávena de açúcar em pó
250 ml de natas p/ bater bem frias
6 bolachas Oreo de tamanho normal

Para a decoração:
14 bolachas Oreo de tamanho normal
10 - 12 bolachas mini Oreo
1 cereja

Comece por fazer os bolos de baunilha e Oreo: pré-aqueça o forno nos 180º.
Unte com manteiga e polvilhe com farinha duas formas de 16 cm e diâmetro, forre o fundo com papel vegetal e volte a untar/polvilhar.
Parta as bolachas em pedacinhos e reserve.
Com uma batedeira eléctrica, bata a manteiga com o açúcar até ficar esbranquiçado e fofo.
Junte o leite e a baunilha. Se parecer que está a talhar, não se preocupe: junte a farinha e o fermento e envolva bem, sem bater demasiado.
Junte a clara de ovo e bata mais um pouco, só até ligar (nesta altura pensei que tinha feito asneira, porque o aspecto da massa não era muito normal, parecia algo deslassada, mas segui em frente e acabou por resultar).
Por fim envolva as bolachas desfeitas, divida pelas formas e leve a cozer cerca de 25 minutos. Estão prontos quando um palito sair com apenas algumas migalhas agarradas.

Deixe arrefecer uns minutos e desenforme. Não desligue o forno, mantendo-os nos 180º.

Faça agora o bolo de chocolate: volte a untar/polvilhar/forrar uma forma com 16 cm.
Derreta a manteiga e deixe arrefecer.
Peneire para uma taça a farinha, o fermento, o bicarbonato e o cacau. Junte o açúcar, o ovo, a manteiga, o leite e a água a ferver. Misture tudo, verta na forma e leve a cozer durante cerca de 30 minutos. Retire, deixe arrefecer uns minutos e desenforme.

Quando os bolos estiverem frios, já pode montar e decorar o bolo final:

Numa taça e com um batedor de varas, bata o queijo mascarpone com o açúcar em pó até obter um creme uniforme e brilhante.
Bata as natas, que devem estar bem frias, com a batedeira eléctrica, até obter picos firmes. Junte estas à mistura do mascarpone e envolva bem. Desfaça 6 bolachas Oreo em pedacinhos e junte a 1/3 do creme de mascarpone e natas (recheio do bolo). Reserve o restante creme (sem bolachas) no frigorífico.
Entretanto, pique num robot de cozinha as 14 bolachas Oreo de tamanho normal, destinadas à decoração, até obter uma espécie de farinha ou pó. Reserve.

Coloque um dos bolos de baunilha no prato de servir. Barre com metade do creme de mascarpone, natas e bolacha. Coloque por cima o bolo de chocolate e barre com o restante creme. Coloque por cima o outro bolo de baunilha, com a parte mais perfeita para cima (normalmente, é o lado do fundo da forma). Retire o creme do frigorífico e barre com este todo o bolo, começando pelo topo e passando depois para as laterais, com a ajuda de uma espátula. Espalhe, com as mãos, o pó de Oreo por todo o bolo - comece pelo topo e depois, com muita paciência, vá enchendo a palma da mão com o pó e aplicando nas laterais do bolo, pressionando ligeiramente. Repita até o bolo estar completamente coberto. Termine decorando com as mini Oreo e a cereja. Leve ao frio até servir.


Notas:

- a aplicação do "pó" de Oreo parece difícil, mas com paciência consegue-se o efeito pretendido e em menos tempo do que se espera; prepare-se para ficar a com área de trabalho coberta de migalhinhas pretas!

- para ter menos trabalho no final, ou seja, não ter de limpar o rebordo do prato de servir, pode forrá-lo, já com o bolo montado, com pedaços de papel vegetal a toda a volta, prendendo-os ligeiramente debaixo do bolo da base; no fim, é só puxar com cuidado pelos papéis e o prato estará limpo;

- o recheio/cobertura da receita original é feita com queijo-creme, mas achei que o mascarpone, que era o que tinha em casa, resultou muito bem;

- se o decorar com várias horas de antecedência, talvez seja melhor colocar as mini Oreo no topo apenas no momento de servir, para não amolecerem.





E tu, o que levarias para uma ilha deserta?
























































[Texto e receita publicados no jornal Observador em 4 de março de 2015]

"O que levarias para uma ilha deserta?" Partindo da premissa de que só podemos escolher um objeto, eu responderia, sem hesitar, que levaria um livro de cozinha. Claro que sendo a ilha ‘deserta’, provavelmente não iria pôr nenhuma receita do livro em prática. Mas o que eu mais gosto num livro de cozinha é de o folhear, de o ler como se fosse um romance, de me perder nas imagens, de recriar mentalmente aquelas combinações. Ao mesmo tempo, rezaria para que na ilha houvesse pelo menos... limões. E sabemos o que fazer quando a vida nos dá limões, certo?

Com sorte encontraria umas garrafas perdidas de rum de um qualquer naufrágio de piratas e, para além de limonada, faria mojitos, que me ajudariam a esquecer o exílio. Sim, porque na ilha haveria também cana-de-açúcar ou arbustos de stevia e, dadas as circunstâncias, nenhum cubano se importaria que eu trocasse a lima por limão.

E se na ilha houvesse ainda framboesas? E se por algum milagre operado pelo santo padroeiro dos náufragos encontrasse um saco de farinha, uma galinha poedeira e uma vaca generosa, a partir de cujo leite pudesse fazer queijo e manteiga? Sonhar não custa, pois não? Nesse caso, nem precisava do livro de cozinha: a receita perfeita seriam estas tartes. Leves e delicadas, a implorarem de mansinho que a primavera não demore a chegar.


MINITARTES DE LIMÃO E FRAMBOESAS
Para cerca de 10

Para a massa:
100 g de farinha de trigo sem fermento (T55)
25 g de miolo de amêndoa com casca moído
60 g de manteiga ou margarina fria
1 ovo pequeno
1 colher de chá de açúcar em pó

Para o recheio
150 g de coalhada de limão*
160 g de queijo mascarpone
20 g de açúcar em pó
1 colher de café de extrato de baunilha
30 framboesas frescas
Folhinhas de hortelã e açúcar em pó para decorar

*Coalhada de limão:
50 ml de sumo de limão
1 ovo L
75 g de açúcar
30 g de manteiga
1 colher de sobremesa de raspas de limão

Comece por preparar a coalhada de limão (lemon curd, no original; se sobrar, use como compota em scones, por exemplo; dura cerca de 15 dias guardada num frasco hermético no frigorífico).
Num tachinho de fundo espesso junte os ovos ao açúcar, mexa bem e junte o sumo de limão, unindo tudo muito bem. Leve ao lume médio, médio-alto, sem deixar ferver, mexendo sempre com um batedor de varas. Deve demorar uns 10-15 minutos a ficar cremoso. Retire do lume e junte a manteiga em pedaços e a raspa de limão. Mexa bem até a manteiga estar derretida, passe para um frasco limpo e deixe arrefecer.

Entretanto prepare a massa: numa taça grande coloque todos os ingredientes, amasse com as mãos até obter uma massa uniforme e moldável. Polvilhe as mãos com farinha, se necessário, molde numa bola, envolva em película aderente e leve ao frio cerca de 30 minutos. Retire, estique a massa numa superfície enfarinhada com um rolo de cozinha e forre as formas. Apare a massa, deixando um rebordo a toda a volta. Coloque um pedaço de papel vegetal por cima da massa, encha de feijões ou pesos próprios de pastelaria e leve ao frigorífico cerca de 15 minutos. Entretanto ligue o forno nos 180º.

Retire as minitartes do frio e leve-as a cozer no nível médio do forno. Após cerca de 15 minutos, retire o papel vegetal e os pesos, e deixe cozer mais cerca de 10 minutos, se possível baixando um nível do forno (para ficarem bem cozidas por baixo). Retire e deixe arrefecer completamente.
Pouco tempo antes de servir, junte o açúcar em pó e a baunilha ao mascarpone.
Coloque uma camada de mascarpone em cada tarte, seguido da coalhada. Disponha as framboesas e termine com as folhas de hortelã e o açúcar em pó. Sirva de seguida.



Say frittata!


















Há palavras de que gosto muito e outras de que não gosto nada.
Há palavras cómicas, há palavras leves, há outras pesadas e cinzentas, que ainda que os seus significados sejam inofensivos provocam-me calafrios.

Quando era pequena costumava associar cores às palavras, aos números e às letras. Por exemplo, o A para mim é branco, o E é amarelo, o I é vermelho, o O é castanho e o U é preto. Há por aí alguém com esta mania? Ou sou só eu que sou maluquinha ;)?

Isto para dizer que adoro a palavra 'frittata'. E apesar de ser uma palavra italiana, apetece-me dizê-la sempre com uma entoação asiática exagerada, bem ao estilo de Mr. Chow do filme "A Ressaca". Got the picture? Aposto que já estão a treinar aí desse lado, eheheh!

Não é novidade que os ovos são aquele ingrediente que melhor nos pode salvar de apuros, quando estamos com a despensa vazia, estamos sem inspiração ou sem grande vontade de cozinhar. Com eles facilmente criamos um prato saboroso e nutritivo. Como esta frittata. Mas a receita que vos trago é só uma ideia, sintam-se livres de fazer outras combinações, mais ao vosso gosto e ao que tiverem no frigorífico. Só têm de me prometer que vão dizer "frittataaaa"!















FRITTATA DE BATATA DOCE E AGRIÃO

(Para 4 pessoas como refeição leve ou para cerca de 6 pessoas como entrada)

1 batata doce grande
6 ovos
1 cebola
2 dentes de alho
50 g de bacon partido em cubos
1 chávena almoçadeira de agriões
1 folha de louro
Sal
Pimenta preta
Azeite
50 g de queijo feta ou queijo de cabra (opcional)
Salsa picada para servir (opcional)

Lave bem a batata doce e leve a cozer com pele num tacho com água abundante temperada com sal.
Numa sertã (idealmente daquelas que podem ir ao forno, como esta da Le Creuset), leve a saltear num fio de azeite a cebola e os alhos picados, juntamente com a folha de louro. A meio do processo junte os cubos de bacon e deixe cozinhar. Entretanto ligue o forno nos 200º.
Quando a batata doce estiver cozida, retirar da água para um prato. Assim que tiver arrefecido o suficiente para lhe poder retirar a pele, faça-o e junte a batata-doce à sertã, retirando antes a folha de louro. Não faz mal se a batata estiver bastante cozida, pode ficar uma espécie de puré. Envolva bem no salteado e tempere com pimenta preta acabada de moer e mais sal, se necessário.
Entretanto bata bem os ovos e tempere-os igualmente de sal e pimenta. Espalhe na sertã os agriões, os pedacinhos de queijo e por fim verta os ovos batidos. Com um garfo, pressione com cuidado os agriões, para ficarem cobertos pelo ovo.
Leve ao forno cerca de 20 minutos ou até os ovos estarem no ponto de que gosta, eu gosto que não cozam completamente...
Polvilhe com salsa picada, se tiver, e sirva com pão e salada.




Celebrar.



















Esta foi a minha primeira receita para a secção Lifestyle do jornal online Observador, publicada por altura do Dia dos Namorados. Uma colaboração que me tem dado bastante prazer e que espero que os leitores do jornal (e os fãs do blog) estejam a gostar de seguir.

E porque não há dia certo para festejar o amor ou para brindar às outras coisas boas da vida, aqui fica esta tarte de aspecto delicado mas de sabor intenso.

Claro que apesar de podermos e devermos viver todos os dias gratos e em clima de celebração, não vamos fazer esta tarte todos os dias, certo? 

[Achei que era melhor colocar aqui esta advertência, uma vez que parece que anda tudo doido com o açúcar, como se só agora se tivesse descoberto que consumido em excesso faz mal à saúde. Se a nossa dieta for equilibrada, dando clara prioridade aos legumes, às leguminosas e à fruta e evitando alimentos processados, podemos de vez em quando 'pecar' com uma fatia desta ou de outra tarte gulosa. Já agora, a propósito deste tema, gosto especialmente de uma frase de Michael Pollan, que é um dos seus princípios para uma alimentação correcta: "Não coma nada que a sua avó não reconhecesse como comida". Ora a minha avó Maria, que é a pessoa que eu conheci que melhor se soube alimentar - e viveu até aos 99 anos - nunca baniu o açúcar da sua dieta]

Se quiserem, como eu, usar saco pasteleiro para cobrir a tarte, certifiquem-se de que usam natas que ficam bem firmes depois de batidas; podem também usar natas vegetais (à venda em lojas de artigos para bolos) ou juntar Chantifix, omitindo neste caso o sumo de limão.



TARTE DE CHOCOLATE E CARAMELO

Para a massa
50 g de miolo de avelã moído
100 g de farinha de trigo sem fermento
10 g de açúcar baunilhado
40 de manteiga ou margarina fria
5-10 ml de água fria

Para a camada de chocolate
200 ml de natas para bater (mínimo 35% de gordura)
1 tablete de chocolate de culinária (200 g)

Para a camada de molho toffee
100 g de açúcar amarelo ou mascavado
125 g de natas para bater (mínimo 35% de gordura)
20 g de manteiga

Para a cobertura
180 g de natas para bater (mínimo 35% de gordura) bem frias
(mesmo depois de terem estado no frigorífico, pode colocá-las uns 15 minutos no congelador antes de batê-las para garantir um melhor resultado)
Algumas gotas de limão
230 g de leite condensado cozido


Pré-aqueça o forno nos 180º e comece por preparar a massa: junte todos os ingredientes numa taça, à exceção da água. Misture-os com as pontas dos dedos, formando uma base homogénea e junte, aos poucos, a água, amassando e vendo sempre se necessita de mais antes de acrescentar. Deve ficar uma massa macia. Passe as mãos por farinha, se for necessário, e forme uma bola. Divida esta em pedaços e espalhe-os pela forma de tarte que vai utilizar e, com a ajuda dos polegares, forre a forma, pressionando, esticando a massa e unindo os pedaços (é mais fácil do que parece; se usar o rolo, a massa vai partir-se). Coloque por cima papel vegetal, encha de feijão, arroz ou pesos próprios e leve ao forno cerca de 15 minutos, retire o papel vegetal e os pesos e volte a levar ao forno cerca de 10 minutos ou até achar que a massa está bem cozida e dourada. Retire do forno e dexe arrefecer completamente.

Entretanto, parta o chocolate em pedaços para uma taça de vidro, cerâmica ou metal e reserve. Leve as natas ao lume médio e, quando fervilharem, coe-as diretamente para a taça do chocolate. Espere uns 5 minutos e mexa bem com um batedor de varas, até obter um creme liso, espesso e brilhante. Deixe arrefecer um pouco e verta sobre a massa da tarte já fria.

Noutro tachinho leve ao lume todos os ingredientes para o molho toffee. Mexa, até a manteiga estar bem derretida e deixe ferver durante alguns minutos para engrossar um pouco (o açúcar mascavado carameliza mais rapidamente, deixe fervilhar apenas 5 minutos; se usar açúcar amarelo vai precisar de mais alguns minutos).
Deixe ficar morno e verta por cima da camada de chocolate. Leve ao frio.

Para a cobertura, bata as natas em chantilly firme (sem adicionar açúcar). A meio do processo junte umas pinguinhas de limão, vai ver que ajuda a ficarem mais espessas (também pode usar natas vegetais, das que se compram em lojas de artigos para bolos e pastelaria e que ficam bastante firmes).
Noutra taça, coloque o leite condensado cozido e mexa bem com um batedor de varas, desfazendo eventuais grumos e deixando-o bem cremoso. Com uma espátula, incorpore delicadamente as natas no leite condensado. Passe este creme para um saco munido de bico pasteleiro e cubra a tarte.
Leve ao frio antes de servir.



Para ver a publicação original, é só clicar aqui.


Um prato de Inverno nos primeiros dias de Primavera.



















Apesar de nos últimos dias a Primavera ter resolvido aparecer, a verdade é que ainda a semana passada andávamos a tiritar (eu, pelo menos, porque sou muito, mas mesmo muito friorenta), e o que apetecia eram pratos quentes e reconfortantes, como este 'cevadotto' de beterraba e laranja.

A primeira vez que comi 'cevadotto' foi na Casa de Pasto Palmeira. Era de gambas e era delicioso. Foi também a primeira vez que ouvi falar da 'cevadinha': o grão de cevada com que é feito o 'cevadotto', prato que vai buscar o nome ao facto de ser cozinhado à semelhança do risotto. Até aí, só associava a cevada às bebidas de pequeno-almoço e à cerveja.Vim a saber depois, que no tempo dos meus avós a cevadinha era muitas vezes adicionada à sopa.

Assim que encontrei 'cevadinha' - procurem-na em mercearias e lojas de sementes ou na secção de produtos saudáveis/alternativos dos hipermercados - experimentei fazer com camarão e fez sucesso cá em casa.
Já mais recentemente, fui almoçar ao LSD (cujo chef, na altura, ainda era o mesmo da Casa de Pasto Palmeira), e provei um 'cevadotto' de beterraba fenomenal.

Esta é a minha versão, inspirada também num risotto de beterraba que vi fazerem no MasterChef Austrália.
Beterraba, laranja e queijo de cabra... só pode ficar bom, certo?

Se por estes dias não vos apetecer este tipo de prato, ou já não encontrarem beterrabas, guardem a receita para dias mais frios: vão ver que vai valer a pena a espera ;)
















CEVADOTTO DE BETERRABA COM LARANJA E QUEIJO DE CABRA

Para 2

160 g de cevadinha*
1 beterraba
1 cenoura
1 molho de salsa
2 cebolas
4 dentes de alho
1 molho de salsa
1 folha de louro
1 talo de alho-francês
1 laranja - sumo e raspa
2 colheres e sopa de vinagre balsâmico
1/2 copo de vinho branco
1 queijo de cabra tipo Palhais (cerca de 125 g)
Azeite qb
Sal e pimenta preta acabada de moer

Lavar muito bem a beterraba e levar a cozer, com a casca, numa panela com bastante água, juntamente com uma cebola, a cenoura descascada, a folha de louro, a salsa, o talo de alho-francês, dois dentes de alho esmagados, sal, pimenta e um fio e azeite.
Quando a beterraba estiver bem cozida, retirar do caldo e deixar arrefecer antes de retirar a pele e cortar em cubos. Retirar eventuais impurezas do caldo, coar e reservar (deve perfazer cerca de 700 ml).

Entretanto, levar ao lume num fio de azeite uma cebola e dois dentes de alho bem picados. Deixar cozinhar um pouco e juntar a cevadinha. Adicionar o vinho branco e deixar evaporar. A partir daqui, vá juntando o caldo aos poucos, mexendo sempre, cerca de 20 minutos. Raspe uma laranja e reserve a raspa. Extraia o sumo da laranja e junte-lhe duas colheres de sopa de vinagre balsâmico. Se achar esta mistura muito ácida, junte-lhe uma colher de chá de açúcar. Adicione à panela e mexa bem. Deixe evaporar um pouco, veja se o grão já está no ponto de cozedura ideal - deve ficar al dente -  e junte mais caldo se necessário. Pouco tempo antes de atingir o ponto ideal, junte a beterraba em cubos e metade do queijo de cabra. Envolva bem e prove para retificar os temperos, adicionando por fim a maior parte da raspa da laranja. No total, deverá demorar cerca de 30 minutos a ficar no ponto.
Sirva com mais queijo de cabra por cima, polvilhado com raspa de laranja e pimenta preta acabada de moer.


*Há quem demolhe a cevadinha de véspera. Eu já experimentei e não notei que cozesse mais rápido...



A Primavera vai e volta sempre.



















A poucos dias de entrarmos oficialmente numa das minhas estações do ano favoritas, recordo-me da cantiga que a minha avó Maria tantas vezes cantarolava e cujo refrão dizia: "A Primavera vai e volta sempre, a mocidade vai e não volta mais".

A minha avó vivia a cantar. Cantava enquanto cozinhava, cantava enquanto costurava, cantava enquanto estendia ou apanhava a roupa da corda que ainda hoje existe no quintal dos meus pais.
Apesar de estar sempre a cantar, fazia-o de uma forma muito serena e tranquila. Lembro-me muitas vezes da sua calma (e penso como gostava de ter herdado essa característica), sobretudo naquelas alturas em que tropeço em contrariedades minúsculas, mas que, pelo menos durante alguns minutos, me parecem gigantescas.

Este bolo é para isso: um pretexto para fazermos uma pausa, para respirarmos fundo e desvalorizarmos os contratempos. Com uma fatia de um lado e uma chávena de chá do outro, fazemos tranquilamente uma viagem às coisas boas que já passaram e alinhavamos planos para o futuro. Porque mesmo que a letra da música o negasse, a minha avó sabia que a mocidade é um estado de espírito.



BOLO DE CITRINOS E PASSAS COM GLACÊ DE LIMÃO

Para o bolo:
120 g açúcar
3 ovos médios
85 g de farinha
10 g de fermento em pó
25 g de sumo de laranja + 1 pouco para demolhar as passas/sultanas
25 g de sumo de limão
25 g de azeite suave, óleo vegetal ou manteiga amolecida
Raspa de 1 laranja
1/2 chávena de uvas-passas e/ou sultanas
Vinho Moscatel qb

Para a calda:
Sumo de 1 laranja
Açúcar a gosto

Para a cobertura:
200 g de açúcar em pó
Sumo de 1 limão

Para a decoração:
Folhas de hortelã
Clara de ovo
Açúcar qb

Com algumas horas de antecedência coloque numa taça as passas e/ou sultanas e cubra com uma mistura de sumo de laranja e vinho moscatel. Também com alguma antecedência, lave as folhinhas de hortelã, seque-as bem em papel de cozinha, pincele-as com clara de ovo e passe-as por açúcar que colocou numa tacinha. Sacuda o excesso e deixe as folhas a secar sobre papel vegetal.

Entretanto ligue o forno nos 180º.
Unte bem uma forma pequena de buraco e polvilhe-a com farinha (este é um bolo relativamente pequeno, se quiser usar uma forma normal/média, dobre a receita).
Numa taça, junte os ovos, o açúcar, a raspa de laranja, o azeite (ou outra gordura escolhida), o sumo dos citrinos, a farinha e o fermento. Misture tudo, até ficar uma massa uniforme, mas não mexa em demasia. Retire as passas/sultanas da taça e seque-as com papel de cozinha. Envolva-as em farinha e junte-as à massa do bolo*. Verta a massa para a forma e leve a cozer cerca de 25-30 minutos. Faça o teste do palito antes de retirar o bolo do forno.

Para fazer a calda, junte ao sumo de laranja açúcar a gosto. Leve ao lume até o açúcar estar dissolvido. Verta com cuidado por cima do bolo. Se este já tiver arrefecido, pique-o com um palito antes de regar com a calda, para que esta se infiltre mais facilmente.
Passe o bolo para o prato de servir e deixe arrefecer completamente.

Para fazer o glacê, deite 150 g do açúcar em pó numa taça e vá juntando sumo de limão, mexendo energicamente com um batedor de varas. Deve ficar um creme brilhante, opaco e sem grumos, mas pode não precisar de usar o sumo todo. O açúcar em pó que colocou de lado pode servir para engrossar o glacê, caso ache que esteja líquido. Este glacé fica bastante ácido, se não apreciar, dilua o sumo de limão em água ou então use clara de ovo em vez do sumo. Quando atingir o ponto desejado, verter com cuidado sobre o bolo. Terminar com as folhas cristalizadas de hortelã.


*Supostamente, envolver as passas e as sultanas em farinha faz com que se prendam à massa e não desçam até ao fundo da forma. No meu caso não resultou e acabaram por ficar concentradas no topo do bolo. Para a próxima vou introduzir as passas ou as sultanas na massa já depois desta estar na forma.

Hoje há queques para o lanche.


















Quem tem filhos em idade escolar e precisa de lhes preparar lanches todos os dias, sabe que não é fácil quebrar-lhes a rotina. Os meus habituaram-se de tal forma ao pão com queijo ou fiambre + iogurte (a fruta fica para o pequeno-almoço e para o final das refeições), que sempre que lhes aceno com algo um bocadinho diferente torcem o nariz. Mas de vez em quando experimento receitas para ver se são do seu agrado, até porque nesta fase parecem estar sempre com fome! Fazem três lanches por dia, dois deles à tarde, e mesmo assim chegam à hora do jantar cheios de apetite e a fazer a mesma e invariável pergunta: "mãe, o que é o jantar?". Mesmo conhecendo a minha resposta mais frequente, que tantas vezes ouvi da minha mãe: "o jantar são línguas de perguntador." Rimo-nos e pronto: mesmo que o prato não seja um dos favoritos, já não reclamam tanto. Acho que tenho muita sorte com os meus piratas.

Estes queques não são para mandar na lancheira todos os dias, claro que não. São um mimo para de vez em quando e espero que venham a fazer parte das suas (boas) recordações de infância. Pelo menos, ficaram aprovados à primeira fornada. A receita é do livro 'Mãos à obra', da autora de um blog que sigo de forma fiel, o Saídos da Concha. A Constança Cabral, aka Concha, é uma inspiração para mim e suspirava pelo seu livro desde que saiu. No meu aniversário, um grupo de amigas atendeu aos meus desejos e, como vêem, já comecei a arregaçar as mangas ;)

















QUEQUES
(receita deste livro)

Fiz metade da receita original e rendeu-me 17 queques.
As quantidades que usei e os procedimentos que segui são os que coloco aqui.

250 g de açúcar
150 g de manteiga amolecida
6 ovos à temp. ambiente
150 ml de leite morno
250 g de farinha de trigo
1/2 colher de chá de fermento em pó

Pré-aqueça o forno nos 180º.
Prepare as formas para queques, forrando-as com forminhas de papel ou cortando quadrados de papel vegetal (ficam bonitos com o papel vegetal, mas é bem mais prático usar formas de papel; concluí que a forma mais fácil de forrar as cavidades com o papel vegetal é amachucá-lo primeiro).
Bata bem o açúcar com a manteiga, até obter um creme esbranquiçado. Junte os ovos, um a um e continue a bater. Adicione o leite, mexa bem e por fim envolva a farinha e o fermento. Distribua pelas formas e leve a cozer cerca de 15 minutos (usei a função ventoinha, uma vez que coloquei dois tabuleiros no forno ao mesmo tempo e acho que assim o calor se distribui mais facilmente, mas o melhor é fazer o testo do palito, quando começarem a ficar dourados: se sair limpo, estão prontos. Retire das formas e coloque-os a arrefecer sobre uma grade.

P.S.: Esqueci-me de contar aqui no blog que estou a colaborar com o jornal Observador! De quinze em quinze dias é publicada uma receita nova saída da cozinha do Lume Brando. Vejam aqui a mais recente: minitartes de limão e framboesa.